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Memórias de um lugar que não existe.

April 25, 2017

 

Como de costume em uma intervenção arquitetônica coleta-se maior volume possível de informação a respeito do programa de necessidades e do local. Neste, mostra-se necessário informações como: clima, insolação, ventos dominantes, topografia, bioma, assim como a história e a cultura, que já diz respeito às ações que pessoas realizaram  na região.

 

 

Em um projeto que estamos desenvolvendo atualmente, interessou-me particularmente a história. Não por possuir uma história conhecida, ou relevante, mas por não possuir nada. Como se não existisse ninguém no local. Na plural e infinita história que pode ser contada de tantas formas distintas, por tantas pessoas únicas, é impensável um bairro com mais de sessenta anos de formação não possuir nenhuma história impressa em páginas de livros ou jornais. Nem mesmo na internet encontra-se algumas linhas a mais do que o nome do bairro seguido por sua localização.

 

A história é sempre escrita pela ótica do vencedor [1], e neste bairro encontram-se apenas os perdedores. Aqueles que perderam suas antigas casas, os que perderam muito por não ter acesso à educação, os que já nasceram em condições plenas de perder.

 

Como não se há uma história, cabe a mim então resgatar os fragmentos da memória do bairro, montar as partes passíveis e não passíveis de serem somadas e fazer um breve registro das ações sobre esse espaço.

 

 

De fato há um despropósito, uma des-objetividade, uma inconsistência nesta busca, afim de culminar em um projeto arquitetônico de uma escola. Afinal, o quão relevante é essa história para esse objeto em formação? Ainda não sei. Talvez não seja. Mas é uma oportunidade para se conhecer um pouco mais sobre meus avós, meus pais, e sobre mim.

 

 

Depois de 17 anos longe do bairro em que nasci, bairro este formado por meus avós, recebo o convite para executar este projeto. Seria insensibilidade da minha parte se isso não me afetasse por dentro.

 

 

Meus avós paternos foram um dos primeiros habitantes da região, trouxeram arruamento, igreja e escola. Colaboraram para a substituição da monocultura, de eucaliptos para a produção de pessoas, essas que se multiplicam aos milhares neste bairro dormitório. Nessa minha última visita não reconheci por inteiro o bairro, não que achasse que fosse outro, mas havia tão pouco de quando o deixei, como em um sonho infantil quando não se é possível reconhecer seus próprios pais. É estranho. Não o estranho familiar, mas o familiarmente estranho[2]. Em uma área que um dia já foi da minha família amontoaram-se casas e mais casas em uma densidade incrível, fruto de ocupações. A vida tem pressa. Não pede licença, apenas acontece.

 

Da área da casa da minha avó lembro-me muito claramente da imagem de uma colina com um enorme pé de manga,  chegando no topo, o prêmio de uma goiabeira milagrosamente sempre com goiabas, mesmo que verdes. Ao lado dela um pequeno caminho que passava por trás da casa do Seu Cláudio com um lago que já não me lembro se era pequeno ou médio – as crianças tem suas próprias réguas – um verdadeiro criadouro de libélulas que sobrevoavam o lago bebendo água ou lavando o bumbum, de acordo com a opinião do observador. Havia também um laguinho ornamental com carpas coloridas, segundo o Seu Claudio, algumas com séculos. Continuando a trilha, chegaríamos ao campinho do futebol, escavado para ter uma arquibancada natural, caso não se incomodassem de se sentar no degrau de barro. Mas lá isso nunca foi problema. Assistia-se a partida clássica, sempre os mesmos dois times, que mudavam partida a partida os jogadores entre si e automaticamente tornavam-se partidários. O time de camisa vs o time sem-camisa.

 

 

Passando o caminho pela trilha avistaríamos o córrego em uma área mais baixa, abobadado pela copa de grandes árvores. Em um canto gregoriano de cigarras, rãs e grilos, a umidade aumentava e a temperatura descia, dando um ar sacro. Mais a frente inúmeras plantas bélicas, palco de diversas guerras de mamonas, e tenho a impressão de que as partidas eram mais concorridas do que as que aconteciam acima no campinho. Talvez por isso eu seja um grande perna-de-pau, e não pelo folclore de que arquiteto não sabe jogar bola. Talvez.

 

 

Continuando chegaríamos a uma área pantanosa, com aqueles capins de rio que desenhamos quando crianças até hoje não consegui aprender o nome. Avistaríamos os fundos da casa da Tia Eunice com uma varandinha deliciosa para aquela paisagem. Ela gostava de flores e plantas, então quanto mais perto da casa menos capim e mais flores. Ao lado as casas de outros tios meus e finalmente a casa do meu pai, ficava em um terreno grande quase uma vilinha composta por outras casinhas. Talvez o mais legal de lá eram os vizinhos, que animavam aquele terreno desolado, famílias tão diferentes entre si que dava para se ter uma vida social completa na companhia deles. Mais uma casa e temos a área lindeira da rodovia Anhanguera,  entidade que dá a chance de uma plantação de eucaliptos se tornar um bairro.

 

O vento causado pelos veículos que rasgam a pista, sopram o pó da terra e geram mais vida [3] .

 

A rodovia assenta-se sob uma antiga rota bandeirista, na qual um exemplar notável a utilizava em suas expedições para pilhar ouro, escravizar indígenas e apresentar seus truques intimidadores aos nativos, e por este último feito ganhou a alcunha de diabo velho, ou na língua nativa, Anhanguera, que rapidamente foi adotada com esmero por ele mesmo, afinal, soa bem melhor do que Bartolomeu, e ainda faz bem para os negócios. Existe até uma escultura em frente ao Parque Trianon em homenagem ao Anhanguera. Pelo o que exatamente? Ai já não sei.

 

 Crescimento da urbanização em São Paulo 

 

 

Voltando ao bairro do Jardim Jaraguá e para a atualidade, nada mais dessas memórias existem. No ano de 2000, distraídos pelos rumores do fim do mundo, não havia espaço para discutir o fim do bairro, ao menos, o bairro que conhecíamos. Lembro da advertência de um feirante que avisava aos gritos dominicais no último mês do ano: “leve  laranja minha senhora, chupe laranja até acabar o mundo.” Nunca entendi o sentido, mas deve ter feito sucesso e lhe garantido um pseudo-último Natal mais gordo.

 

 

O que aconteceu foi que a maior obra viária de São Paulo que visa melhorar o fluxo de toda a região metropolitana calhou de passar em cima do meu bairro, e em cima da minha casa, e não de uma apenas, mas das duas.

 

 

Meus pais são separados desde que me lembro por gente, apesar de terem morado praticamente na mesma rua. As famílias foram desapropriadas, lembro que o trend topics dos vizinhos era “pagamento da desapropriação”. Depois de negociações e advogados a já famigerada Auto BAn[4] pagou definitivamente todos os moradores afetados. E assim cada um foi para um lugar, e eu no caso, fui para dois.

 

 

O Rodoanel conecta, aproxima pontos ora distantes da metrópole, mas em minha infantil e humilde experiência, foi uma obra que criou distância, separou meus vizinhos, acabou com o caminho, com as mamonas, com o córrego, o pé de manga, a colina. Mas, afinal tudo isso é irrelevante, é besteira, é um impacto irrisório se comparado aos benefícios metropolitanos, pode-se pensar. Mas apenas permite-se essa opinião quem não é o afetado, o espectador que assiste de longe – não em um banco de barro – a vida inteira desaparecer por cavadeiras e dinamites.

 

 

A minha infância não existe mais, e por não se ter nem uma página escrita sobre o bairro, dá a impressão de que nunca existiu, que foi apenas um delírio pueril.  Fala-se muito sobre o Rodoanel, mas nada sobre os bairros trucidados por ele. Feridos fatalmente caso não se tenha um tratamento urbano mais digno do que taludes e grama. E mais uma vez a alcunha da Rodovia Anhanguera – ditou os acontecimentos, só que nesta ocasião não foi necessário os truques mágicos, entregamos o ouro sem ter nenhuma opção. E mais uma vez, os bandeirantes vencem e os locais perdem.

[1] Geoge Orwell: “A história é escrita pelos vencedores”

[2] O estranho-familiar ou a inquietante estranheza (originalmente, em alemão, Das Unheimliche) é um conceito freudiano que se refere a algo (ou uma pessoa, uma impressão, um fato ou uma situação) que não é propriamente misterioso mas estranhamente familiar, suscitando uma sensação de angústia, confusão e estranhamento que remonta àquilo que é desde há muito conhecido.

[3] Criação do Homem: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.” Gênesis 2:7

[4] CCR Auto BAn – empresa construtora de estrada 

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